quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BREJO DA SEVERINA



A estrada é áspera, porosa e esburacada. Além, o brejo da Severina onde ela vive feliz colhendo as ervas para o chá, os gravetos de lenha para o fogão de chapa. Fogão enegrecido, fumarento, o fogo crepitando, jogando faíscas para o alto quando Severina incha as bochechas no assoprar, avivando as brasas debaixo do caldeirão de feijão e da panelinha de sopa. O taboal de um vermelho escuro põe uma mancha alegre no brejal imenso. O terreno arenoso aqui, úmido ali, pequeninos lagos onde o coaxar dos sapos é música para Severina. Não só os sapos, também os grilos fazem musiquinhas adormecendo Severina na cama tosca com lençóis encardidos. A estrada porosa corta o brejal, os que passam saúdam Severina na sua faina de recolher o que há de melhor e mais precioso no seu brejo, o brejo de sua vida.

O brejo é o seu mundo, sua alegria, sua razão de viver. As borboletas esvoaçantes são pétalas de flores adejando no ar pedacinhos coloridos e luminosos, dando mais vida e mais beleza aos olhos de Severina, a senhora do seu brejo. Severina magra, rosto chupado, pernas finas, pés pequenos arrastando as sandálias de tiras, lenço na cabeça, vestido de chita, é uma rainha. Rainha de seu brejo, onde Severina tem lá num canto, junto a uma moita de árvores pequenas, sua casinha de barro batido, porta de taramela, janelinhas amarradas com embiras de bananeira. De manhãzinha Severina, a rainha do brejo, joga punhadinhos de milho para as galinhas magras e quirela para os pintinhos. As galinhas se amontoam ao redor de suas pernas finas, os pintinhos piu... piu... beliscam os grãozinhos enquanto Severina vai ao poço buscar água para o café.

O sol sobe dourado enchendo de vida todo o brejo, fazendo brilhar as flores, o taboal, as ervas e os pequenos lagos. Severina não tem dinheiro, mas é muito rica. Rica de humildade, simplicidade, sobretudo rica porque possui todo aquele brejo coberto de mil toneladas de ouro do sol que vem subindo, aquecendo e iluminando. Rica de esmeraldas dos tufos verdes de verduras que brotam espontaneamente da terra úmida e cheirosa. Cantarolando, Severina recolhe os gravetos de lenha, as palhas de folhas secas para a forragem dos ninhos, ervas perfumadas e flores para o altarzinho onde o Menino Jesus, deitado na pequenina cama de capim seco, vê Severina com seus olhinhos azuis. “Abençoada és tu Severina no teu brejo que é teu mundo”. À tardinha Severina contempla o pôr-do-sol em tons alaranjados, rosa e roxo violeta.

Já faz um bom tempo que não passo por lá. Sinto saudades de Severina, do seu brejo, das flores, das borboletas e principalmente de sua riqueza, porque a riqueza de Severina é o sol, a lua, as estrelas, o mato rasteiro e o capim cheiroso.

Boa noite, Severina. Deixa uma fenda da janelinha aberta para o luar brilhar teu rosto enquanto tu dormes o sono dos justos. E de manhã quando o sol despontar, um raio de luz atravessa tua janelinha e te beija festivamente. Bom dia Severina. Deus te abençoe na riqueza do teu brejo.

                   Cirene Fazolo Freire
07/07/1990

Um comentário:

  1. Singelo, simples e delicado. Um conto que fala da amizade, da partilha, compreensão e do perdão.

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