quarta-feira, 12 de julho de 2017

ASFALTO VERDE

São José das Três Ilhas, Belmiro Braga-MG




Neila, cinco letras e cinco mil qualidades. Falar de Neila é difícil porque, com cinco mil qualidades, a cabeça se perde em divagações. Eu falo de Neila como posso, como me favorece a imaginação. Arranco as palavras das cinco letras e das cinco mil qualidades.

            Certa vez, numa tarde bonita, em sua casa humilde, ainda solteira e bem novinha, ajoelhada no chão da sala, tendo ao lado uma lata de cera e na mão direita um pedaço de pano, Neila dava brilho ao assoalho de tábuas ou tacos, não me recordo, na sala pequena e humilde. Fazia brilhar o chão de sua casa situada na beira do cafezal, num sítio lá pelos lados de Jerônimo Monteiro. Não sei o nome daquele lugar onde fica a casa pequena que, com certeza, a viu nascer. Se não viu nascer, viu crescer e fazer brilhar seu chão.  O assoalho brilhava pelas mãos disponíveis de Neila e deixava o cheiro de limpeza, assim como em Neila tudo é limpeza, pureza e suavidade.

Fiquei olhando aquela criaturinha linda e pura como a flor, encerando o chão, porque Neila quer que o chão de sua casa seja limpo e cheio de brilho. Por isso ganhou um asfalto verde.

Mais tarde, já amadurecida, casou-se com Jorge. Fui ao casamento, almoçamos ao ar livre no terreiro grande da casa pequena onde o chão é lustroso pelas mãos de Neila. À tardinha, às seis horas, quando os sinos anunciavam o Angelus, Neila entrou na igreja, radiante, linda, num vestido lindo, numa tarde quente. No altar repetiu com o padre as palavras que fazem unir dois corações num só coração. Foi morar numa pequena casa, perto dos pais. Eles sentiram demais sua falta, mas sentiram também felicidade ao mesmo tempo, porque Neila soube levar sua vida simples na roça, onde os galos cantam de madrugada e os passarinhos gorjeiam alegremente ao redor da pequena casa, onde o cheiro da limpeza, feito por suas mãos habilidosas, permanece. Como permanece em sua alma limpa e pura a suavidade da flor do campo, porque Neila é realmente a flor do campo.

Falou comigo sobre seu trabalho na catequese da igrejinha daquela região, pequena comunidade com cinco letras e cinco mil qualidades. No dia 21 de março, na casa da Iolanda, em Alegre, tive o grande prazer de revê-la, acompanhada dos pais e seu filhinho de dois anos, muito parecido com o Menino Jesus. Neila mudou-se para a casa pequena onde a jaqueira sombreava o terreiro e manda para dentro de casa a brisa fresca da tarde. Não conheço seu novo lar, mas sei que seu asfalto é verde.

Com estas palavras, ditas por ela, “asfalto verde”, me inspirou a escrever esta crônica e mandar pelo correio, porque não posso deixar de comentar e esticar esta frase. Ela, no seu sorriso de pura bondade e na sutileza das palavras, me falou: “O Jorge disse que nosso asfalto é verde”. Cá dentro de mim, como uma luzinha que se acende de repente, algo me iluminou. O asfalto de Neila, Jorge e do Menino Jesus é macio, atapetado de relva, onde os pés não sentem o calor porque é relvoso, atapetado pela própria natureza. Deus os abençoe no asfalto verde e os faça cada dia mais felizes, mais conscientes de que a felicidade não mora num palácio, mas sim num asfalto verde.

Cirene Fazolo Freire