segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A VAQUINHA DE SUSETE




Susete é uma menina muito inteligente e muito bondosa. A mãe de Susete vendia leite na cidade. Quando Susete fez dez anos, a mãe dela falou: “Susete, agora você é quem vai vender o leite porque você já precisa trabalhar para conhecer a vida, aprender a ganhar o seu dinheirinho. Você pode ficar com o dinheiro, mas veja bem, trabalha direitinho e não faça estripulias pelo caminho, está ouvindo?”.



O sonho de Susete era ter uma vaquinha de verdade. Susete queria uma vaquinha de verdade, mas não tinha dinheiro para comprar a vaquinha de verdade. Por isso, Susete ficou muito feliz. Ia juntar dinheiro para comprar a vaquinha.



De manhã bem cedinho, Susete saiu de casa, andando pela estrada com a vasilha do leite. Os tamanquinhos de Susete faziam toc... toc... toc... E lá vai Susete, distraída pensando... pensando... “com o dinheirinho do leite eu compro uma galinha, a galinha choca os ovos e dos ovos saem pintinhos, os pintinhos crescem, viram frangões, aí eu vendo os frangões e compro uma cabritinha. A cabritinha cresce e ganha um monte de cabritinhos, eu vendo os cabritinhos e compro uma porquinha. A porquinha cresce e ganha uma porção de porquinhos, eu vendo os porquinhos e compro a minha vaquinha.



Aí Susete tropeçou numa pedra, levou um tombo, entornou todo o leite e fez um galo na cabeça. Susete sentou numa pedra na beira do caminho e começou a chorar, chorar. Aí apareceu um velhinho todo vestido de branco, muito bonzinho e muito amigo.



- Susete, Susete, por que você está chorando?

- Porque entornei o leite

- E é preciso chorar?

- Precisa, sim, uai! Não está vendo o leite todo derramado no chão?

- Estou.

- Então, que pergunta mais besta! Como é que eu vou comprar a minha vaquinha? Agora não vendo mais leite, não vendo, não vendo e não vendo!

- Susete, Susete, quantas vezes você caiu?

- Uma só, uai!

- Você sabe quantas bolinhas de barro o João-de-barro carrega para fazer a casa dele?

- Eu não. E não me vem com esta história de João-de-barro que não nada a ver com meu leite derramado.



Susete continuava chorando, enxugando o rosto no avental.



- Pois fica sabendo que o João-de-barro carrega duzentas bolinhas de barro até a casa ficar pronta.

- E o que eu tenho com isso? Eu aqui chorando e o senhor me vem com esta conversa maluca.

-Susete, Susete, volta e amanhã você vem de novo vender o leite.

- O senhor acha?

- Claro que eu acho. Quando a gente cai, não fica no chão, levanta e vai em frente. Você é corajosa ou não é?

- Sou, uai! Não está vendo eu enfrentando com dez anos de idade?

- É, mas já desanimou no primeiro tombo. Você deve andar mais devagar e não deixar sua cabeça andar mais depressa que as pernas.

- Onde já se viu cabeça andar sem pernas?

- Anda sim, Susete.

- Eu acho que o senhor é meio maluco. Onde o senhor mora?

- Moro em todos os lugares e também dentro do coração das meninas boazinhas, obedientes e trabalhadeiras assim como você, portanto eu moro dentro do seu coração também.

- Eu não disse que o senhor é meio maluco? Primeiro vem com essa história de João de-barro, e depois que mora dentro do coração da gente.

- Susete, Susete, levanta, pega a vasilha e amanhã começa tudo de novo.
Cachoeira do Roncador - Celina, distrito de Alegre-ES


Susete pegou a vasilha vazia e no outro dia de manhã bem cedinho, toc... toc... toc... dos tamanquinhos de Susete. Ela trabalhou muito, mas sem correria, trabalhou com calma e confiança. Um dia Susete abriu o saquinho do dinheiro. Olha que montão! Será que dá para comprar a vaquinha?



Pam, pam, pam...

- Quem é?

- É Susete.

- Ah, menina Susete, como vai você? E o que você veio fazer na minha casa a esta hora da tarde?

- Vim comprar uma vaquinha, o senhor tem vaquinha para vender?

- Quá, quá, quá!

- Está rindo de que, hein, seu Tinoco? Nunca viu ninguém comprar uma vaquinha?

- Já vi, sim. Eu vendo vaquinhas. O que eu nunca vi é menina comprar vacas. Menina não tem dinheiro.

- Olha aqui, seu Tinoco, está vendo este saquinho?

- Estou.

- Isso é dinheiro.

- Menina Susete, onde você arranjou um saquinho de dinheiro?

- Trabalhando, uau!

- Quá, quá, quá!

- Acho bom, seu Tinoco, o senhor não ficar rindo da minha cara. Tem ou não tem vaquinha para vender?

- Tenho, mas primeiro me conta esta história direito.



Susete contou, seu Tinoco acreditou. “Vamos, menina Susete, ver as vaquinhas. O seu dinheiro só dá para comprar uma. Só tem duas, a Rosada e a Mimosa.”



Susete levou a mão na cabeça, ficou pensando... pensando... De repente, falou: “Eu vou comprar a Rosada”. Susete saiu puxando a Rosada pela cordinha, feliz da vida. A Rosada tinha três sininhos pendurados no pescoço que faziam blim-blim-blim.



“Susete, Susete, você é mesmo corajosa”. Susete olhou para o lado, viu o velhinho sentado na pedra.

- Olha a minha vaquinha, que queria muito! Agradeço ao senhor que me deu coragem.

- Não precisa agradecer, a Rosada é muito bonita.

- Como é que o senhor sabe o nome dela? E como é que sabe também o meu nome?

- Eu sei todas as coisas, menina Susete.

- Eu não disse que o senhor é meio maluco?

- Não sou não. Fui eu que ajudei você a escolher a Rosada porque a Mimosa não dá muito leite. A Rosada dá muito mais.



Susete ficou parada, confusa, olhando o rosto bonito do velhinho bondoso.

- Vai, Susete, e continua sempre assim, boazinha, obediente e trabalhadeira.

- Sim, senhor, vou ser sempre assim. Até outro dia.



Saiu, olhou para trás para perguntar o nome do velhinho. Não viu mais o velhinho, viu uma nuvem branquinha que ia subindo... subindo... até chegar no céu. Susete seguiu o seu caminho andando devagar pela estrada a fora, os sininhos da Rosada faziam blim...blim...blim...blim...



E acabou-se a história, entrou pelo pé do pato, saiu pelo rabo do gato, quem quiser que conte quatro.


Cirene Fazolo Freire, maio de 1991.
Dona Cirene na varanda da casa da Celeste Emerick, talvez matutando novas historinhas (janeiro/2008)