Susete é uma
menina muito inteligente e muito bondosa. A mãe de Susete vendia leite na
cidade. Quando Susete fez dez anos, a mãe dela falou: “Susete, agora você é
quem vai vender o leite porque você já precisa trabalhar para conhecer a vida,
aprender a ganhar o seu dinheirinho. Você pode ficar com o dinheiro, mas veja
bem, trabalha direitinho e não faça estripulias pelo caminho, está ouvindo?”.
O sonho de
Susete era ter uma vaquinha de verdade. Susete queria uma vaquinha de verdade, mas
não tinha dinheiro para comprar a vaquinha de verdade. Por isso, Susete ficou
muito feliz. Ia juntar dinheiro para comprar a vaquinha.
De manhã bem
cedinho, Susete saiu de casa, andando pela estrada com a vasilha do leite. Os
tamanquinhos de Susete faziam toc... toc... toc... E lá vai Susete, distraída pensando...
pensando... “com o dinheirinho do leite eu compro uma galinha, a galinha choca
os ovos e dos ovos saem pintinhos, os pintinhos crescem, viram frangões, aí eu
vendo os frangões e compro uma cabritinha. A cabritinha cresce e ganha um monte
de cabritinhos, eu vendo os cabritinhos e compro uma porquinha. A porquinha
cresce e ganha uma porção de porquinhos, eu vendo os porquinhos e compro a
minha vaquinha.
Aí Susete
tropeçou numa pedra, levou um tombo, entornou todo o leite e fez um galo na
cabeça. Susete sentou numa pedra na beira do caminho e começou a chorar,
chorar. Aí apareceu um velhinho todo vestido de branco, muito bonzinho e muito
amigo.
- Susete,
Susete, por que você está chorando?
- Porque
entornei o leite
- E é preciso
chorar?
- Precisa,
sim, uai! Não está vendo o leite todo derramado no chão?
- Estou.
- Então, que
pergunta mais besta! Como é que eu vou comprar a minha vaquinha? Agora não
vendo mais leite, não vendo, não vendo e não vendo!
- Susete,
Susete, quantas vezes você caiu?
- Uma só,
uai!
- Você sabe
quantas bolinhas de barro o João-de-barro carrega para fazer a casa dele?
- Eu não. E
não me vem com esta história de João-de-barro que não nada a ver com meu leite
derramado.
Susete
continuava chorando, enxugando o rosto no avental.
- Pois fica
sabendo que o João-de-barro carrega duzentas bolinhas de barro até a casa ficar
pronta.
- E o que eu
tenho com isso? Eu aqui chorando e o senhor me vem com esta conversa maluca.
-Susete, Susete,
volta e amanhã você vem de novo vender o leite.
- O senhor
acha?
- Claro que
eu acho. Quando a gente cai, não fica no chão, levanta e vai em frente. Você é
corajosa ou não é?
- Sou, uai!
Não está vendo eu enfrentando com dez anos de idade?
- É, mas já
desanimou no primeiro tombo. Você deve andar mais devagar e não deixar sua
cabeça andar mais depressa que as pernas.
- Onde já se
viu cabeça andar sem pernas?
- Anda sim,
Susete.
- Eu acho que
o senhor é meio maluco. Onde o senhor mora?
- Moro em
todos os lugares e também dentro do coração das meninas boazinhas, obedientes e
trabalhadeiras assim como você, portanto eu moro dentro do seu coração também.
- Eu não
disse que o senhor é meio maluco? Primeiro vem com essa história de João
de-barro, e depois que mora dentro do coração da gente.
- Susete,
Susete, levanta, pega a vasilha e amanhã começa tudo de novo.
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| Cachoeira do Roncador - Celina, distrito de Alegre-ES |
Susete pegou
a vasilha vazia e no outro dia de manhã bem cedinho, toc... toc... toc... dos
tamanquinhos de Susete. Ela trabalhou muito, mas sem correria, trabalhou com
calma e confiança. Um dia Susete abriu o saquinho do dinheiro. Olha que montão!
Será que dá para comprar a vaquinha?
Pam, pam,
pam...
- Quem é?
- É Susete.
- Ah, menina
Susete, como vai você? E o que você veio fazer na minha casa a esta hora da
tarde?
- Vim comprar
uma vaquinha, o senhor tem vaquinha para vender?
- Quá, quá,
quá!
- Está rindo
de que, hein, seu Tinoco? Nunca viu ninguém comprar uma vaquinha?
- Já vi, sim.
Eu vendo vaquinhas. O que eu nunca vi é menina comprar vacas. Menina não tem
dinheiro.
- Olha aqui,
seu Tinoco, está vendo este saquinho?
- Estou.
- Isso é
dinheiro.
- Menina
Susete, onde você arranjou um saquinho de dinheiro?
-
Trabalhando, uau!
- Quá, quá,
quá!
- Acho bom,
seu Tinoco, o senhor não ficar rindo da minha cara. Tem ou não tem vaquinha
para vender?
- Tenho, mas
primeiro me conta esta história direito.
Susete
contou, seu Tinoco acreditou. “Vamos, menina Susete, ver as vaquinhas. O seu
dinheiro só dá para comprar uma. Só tem duas, a Rosada e a Mimosa.”
Susete levou
a mão na cabeça, ficou pensando... pensando... De repente, falou: “Eu vou
comprar a Rosada”. Susete saiu puxando a Rosada pela cordinha, feliz da vida. A
Rosada tinha três sininhos pendurados no pescoço que faziam blim-blim-blim.
“Susete,
Susete, você é mesmo corajosa”. Susete olhou para o lado, viu o velhinho
sentado na pedra.
- Olha a
minha vaquinha, que queria muito! Agradeço ao senhor que me deu coragem.
- Não precisa
agradecer, a Rosada é muito bonita.
- Como é que
o senhor sabe o nome dela? E como é que sabe também o meu nome?
- Eu sei
todas as coisas, menina Susete.
- Eu não
disse que o senhor é meio maluco?
- Não sou
não. Fui eu que ajudei você a escolher a Rosada porque a Mimosa não dá muito
leite. A Rosada dá muito mais.
Susete ficou
parada, confusa, olhando o rosto bonito do velhinho bondoso.
- Vai, Susete,
e continua sempre assim, boazinha, obediente e trabalhadeira.
- Sim,
senhor, vou ser sempre assim. Até outro dia.
Saiu, olhou para
trás para perguntar o nome do velhinho. Não viu mais o velhinho, viu uma nuvem
branquinha que ia subindo... subindo... até chegar no céu. Susete seguiu o seu
caminho andando devagar pela estrada a fora, os sininhos da Rosada faziam
blim...blim...blim...blim...
E acabou-se a
história, entrou pelo pé do pato, saiu pelo rabo do gato, quem quiser que conte
quatro.
Cirene
Fazolo Freire, maio de 1991.
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| Dona Cirene na varanda da casa da Celeste Emerick, talvez matutando novas historinhas (janeiro/2008) |


