domingo, 16 de outubro de 2016

GATA MAFALDA



 
 Mafalda é gata importante
Tem porte de fina dama
De dia dorme no sofá
De noite dorme na cama.

Só bebe água na torneira
Recusa a água do pote
Apesar de fina dama
É costume dar o bote.

Tem ração de fino trato
Mas saboreia um filezinho
Lambe os beiços com iogurte
E adora um danoninho.

Na janela refestelada
Exibindo sua beleza
De olho na passarada
Não caça, é gata de cama e mesa.

Toma banhos, muitos por dia
É limpa, não pisa em telhas
Lava com cuidado o corpo todo
E deixa viradas as orelhas.

Sua origem pouco importa
Desse assunto não se trata
Se por fora é fina dama
Por dentro é vira lata.

E quando está de fricote
Pula e corre a casa inteira
Se esparrama escandalosa
E ainda me passa uma rasteira.



                                                        (Cirene Fazolo Freire, set/2011)

HOMENAGEM DA RENATA

No dia 14 de julho, a Renata postou no Facebook esta linda homenagem no perfil da vó Cirene. Ela, certamente, adorou!






Hoje foi dia de despedida, mas as lembranças e o amor vão ficar pra sempre. E quando a saudade apertar eu tenho meu caderno de desenhos cheio de flores, histórias, versinhos e comentários divertidos feitos por ela especialmente para mim em um dos meus aniversários. Presente mais lindo que a vovó me deixou!

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BREJO DA SEVERINA



A estrada é áspera, porosa e esburacada. Além, o brejo da Severina onde ela vive feliz colhendo as ervas para o chá, os gravetos de lenha para o fogão de chapa. Fogão enegrecido, fumarento, o fogo crepitando, jogando faíscas para o alto quando Severina incha as bochechas no assoprar, avivando as brasas debaixo do caldeirão de feijão e da panelinha de sopa. O taboal de um vermelho escuro põe uma mancha alegre no brejal imenso. O terreno arenoso aqui, úmido ali, pequeninos lagos onde o coaxar dos sapos é música para Severina. Não só os sapos, também os grilos fazem musiquinhas adormecendo Severina na cama tosca com lençóis encardidos. A estrada porosa corta o brejal, os que passam saúdam Severina na sua faina de recolher o que há de melhor e mais precioso no seu brejo, o brejo de sua vida.

O brejo é o seu mundo, sua alegria, sua razão de viver. As borboletas esvoaçantes são pétalas de flores adejando no ar pedacinhos coloridos e luminosos, dando mais vida e mais beleza aos olhos de Severina, a senhora do seu brejo. Severina magra, rosto chupado, pernas finas, pés pequenos arrastando as sandálias de tiras, lenço na cabeça, vestido de chita, é uma rainha. Rainha de seu brejo, onde Severina tem lá num canto, junto a uma moita de árvores pequenas, sua casinha de barro batido, porta de taramela, janelinhas amarradas com embiras de bananeira. De manhãzinha Severina, a rainha do brejo, joga punhadinhos de milho para as galinhas magras e quirela para os pintinhos. As galinhas se amontoam ao redor de suas pernas finas, os pintinhos piu... piu... beliscam os grãozinhos enquanto Severina vai ao poço buscar água para o café.

O sol sobe dourado enchendo de vida todo o brejo, fazendo brilhar as flores, o taboal, as ervas e os pequenos lagos. Severina não tem dinheiro, mas é muito rica. Rica de humildade, simplicidade, sobretudo rica porque possui todo aquele brejo coberto de mil toneladas de ouro do sol que vem subindo, aquecendo e iluminando. Rica de esmeraldas dos tufos verdes de verduras que brotam espontaneamente da terra úmida e cheirosa. Cantarolando, Severina recolhe os gravetos de lenha, as palhas de folhas secas para a forragem dos ninhos, ervas perfumadas e flores para o altarzinho onde o Menino Jesus, deitado na pequenina cama de capim seco, vê Severina com seus olhinhos azuis. “Abençoada és tu Severina no teu brejo que é teu mundo”. À tardinha Severina contempla o pôr-do-sol em tons alaranjados, rosa e roxo violeta.

Já faz um bom tempo que não passo por lá. Sinto saudades de Severina, do seu brejo, das flores, das borboletas e principalmente de sua riqueza, porque a riqueza de Severina é o sol, a lua, as estrelas, o mato rasteiro e o capim cheiroso.

Boa noite, Severina. Deixa uma fenda da janelinha aberta para o luar brilhar teu rosto enquanto tu dormes o sono dos justos. E de manhã quando o sol despontar, um raio de luz atravessa tua janelinha e te beija festivamente. Bom dia Severina. Deus te abençoe na riqueza do teu brejo.

                   Cirene Fazolo Freire
07/07/1990